Individualismo E Coletivismo: Homens Ou Abelhas?

 


Site   : Mídia Sem Máscara
Autor  : Ubiratan Jorge Iorio (www.ubirataniorio.org)
Data   : 31/05/2004
Fonte  : http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2070


Sobre o autor: Doutor em Economia (EPGE/FGV), Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (Cieep) e Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Resumo: Ubiratan Iorio analisa os preceitos políticos e econômicos que levam o liberalismo ao sucesso, enquanto o estatismo coletivista patina em erros e dificuldades.

I. INSTITUIÇÕES, ECONOMIA E ÉTICA

Introdução


Entre todos os seres criados, o homem é o único que leva a sua vida com base na busca de propósitos individuais e de objetivos racionalmente delineados, subjetiva e objetivamente, o que torna as suas escolhas completamente distintas da "escolha", por exemplo, de um leão faminto diante de um alce indefeso. Guiamos nossas escolhas por critérios racionais – e, por isso mesmo, exclusivamente humanos – e é isto exatamente que faz com que cada um de nós, ao longo do tempo que nos é concedido neste mundo, vá constituindo, passo a passo, escolha a escolha, acerto a acerto, erro a erro, virtude a virtude, vício a vício, nossa própria história, algo que não acontece com os animais irracionais. Ortega y Gasset sempre fez questão de manifestar o seu desagrado com a expressão "natureza humana", porque, como não nos guiamos puramente por nossos instintos e sendo cada um de nós dono exclusivo da própria consciência, o correto é falarmos não de uma "natureza", mas de uma condição humana.

Faz parte dessa condição de ser homem escolher e a vida nada mais é do que um suceder de escolhas racionais, em que pensamos em nós, em nossas famílias e não em entes aparentemente concretos, mas que são abstratos ou individualmente intangíveis, como a "sociedade". Não somos abelhas, formigas nem cupins; somos pessoas humanas, revestidas de dignidade e isto não significa necessariamente que somos inelutavelmente egoístas, mas simplesmente individualistas. Reconhecer isto significa quase que simultaneamente aceitar que o que separa o individualismo do egoísmo são as prescrições de natureza ética e moral.

Na economia, no direito, na política, na vida, enfim, nossas escolhas podem ser boas ou más, quando julgadas por critérios éticos. E a história da civilização mostra sobejamente que as sociedades que se basearam em arcabouços institucionais que buscam enfatizar o individualismo das escolhas obtiveram resultados claramente superiores aos atingidos por aquelas que construíram bases institucionais visando ao coletivismo, tanto em termos de geração e de distribuição dessa riqueza – aspectos puramente materiais -, quanto, especialmente, nos da conformação da condição humana à missão transcendental que cada um de nós tem neste mundo – vale dizer, em um plano espiritual. De fato, é apenas nas sociedades calcadas em instituições econômicas, jurídicas e políticas pautadas no respeito aos direitos individuais que a ética ocidental, de natureza judaico-cristã, pode florescer e desenvolver-se, na medida em que cada indivíduo, delimitado em suas escolhas por normas gerais de justa conduta, pode desenvolver o seu potencial de trabalhar não apenas visando ao crescimento material, mas também harmonizando essa sua busca, essa sua história, com os atributos essenciais que constituem a dignidade da pessoa humana. Nos sistemas coletivistas tal harmonia entre o temporal e o eterno, entre o efêmero e o imorredouro, é simplesmente impossível, já que tais formas de organização política, jurídica e econômica, embora apresentem um discurso sempre bem acabado e mascarado sob a bela fantasia da "solidariedade", na verdade estimulam o individualismo predatório, ou seja, o egoísmo. Após diversas experiências de regimes autoritários socialistas, viu-se que sua apregoada virtude, na realidade, não tem nada de virtude: é vício.

O coletivismo, sob o ponto de vista moral, estimula o vício! Entre outras causas, porque desestimula os verdadeiros fatores propulsores do desenvolvimento econômico, que são a liberdade, a criatividade, a inventividade e a inteligência dos indivíduos. Para que ser criativo, inventivo ou inteligente, se os resultados serão, por definição de um comitê central, praticamente os mesmos que serão obtidos pelos não criativos, pelos que não têm inventividade e pelos estultos?

Estas considerações poderiam ser perfeitamente dispensadas, se não vivêssemos no Brasil e, em especial, em um período em que os que ocupam o poder executivo parecem crer, embora tardiamente, nas falácias do coletivismo.

Nossas instituições

Em 1776, a renda das treze colônias que originaram os Estados Unidos era equivalente à dos treze países que constituem hoje a América do Sul. Cem anos depois, a distância já era enorme e hoje, duzentos e vinte e oito anos após a Declaração de Independência, o hiato é maior. As causas dessa disparidade de desempenhos não se limitam à economia – algo que boa parte dos economistas, infelizmente, parece não conhecer -, elas são institucionais, econômicas e éticas, sendo que as últimas tanto podem estimular quanto envenenar o organismo social, pois representam o elo mais forte da cadeia.

Sob o ponto de vista institucional, enquanto nos Estados Unidos implantou-se um sistema garantidor dos direitos individuais básicos, com uma Constituição enxuta e baseada em normas de direito negativo, essencialmente derivadas de usos, costumes e tradições, e da jurisprudência, tendo os preceitos constitucionais como pano de fundo, no Brasil e na América do Sul, fez-se o contrário: o coletivo sobrepujando o individual, constituições extremamente prolixas e eivadas de normas de direito positivo, com uma ordem inversa de priorização, em que aparecem em primeiro lugar os ditames constitucionais, depois a jurisprudência e em último lugar o direito consuetudinário. Usando a nomenclatura empregada por Hayek em seu Law, Legislation and Liberty, os Estados Unidos situaram-se perto do paradigma nomos, enquanto a América Latina em geral preferiu acomodar-se no entorno do padrão thesis.

No que diz respeito à organização econômica, os norte-americanos adotaram um modelo bem próximo ao que Hayek denominou de cosmos, ou seja, uma economia de mercado, com respeito absoluto à livre iniciativa e à liberdade econômica, ao passo que os latino-americanos seguiram o paradigma táxis, caracterizado pelo dirigismo econômico conduzido pelo Estado, em graus que oscilam entre o grande e o gigantesco.

Por fim, no que respeita à ética – que serve de base tanto para as instituições quanto para as atividades econômicas -, se nos Estados Unidos ela estimulava a busca individual pelo progresso, na medida em que premiava o trabalho profissional bem executado, o esforço de produzir e os hábitos de frugalidade, dentro da tradição judaico-cristã, na América Latina, região também cristã, a "ética" coletivista exacerbou (como não poderia deixar de ser) a visão de que o trabalho é um estorvo ou, na melhor das hipóteses, um "mal necessário", de que não compensa esforçar-se para produzir e de que poupar não compensa. Tal visão distorcida do cristianismo foi, infelizmente, fortemente estimulada, em especial durante os anos 70 e 80 do século XX, pelos chamados "teólogos" da Teologia da Libertação, que se utilizaram do rótulo moral do catolicismo e o deturparam, com vistas a propagar o coletivismo. Para que nos esforçarmos, se é melhor – e mais cômodo -esperar que o Estado faça chover o maná?

As diferenças entre os resultados obtidos pelos americanos do norte e os colhidos pelos do sul podem ser explicadas por essa trilogia institucional, econômica e ética.

II. PERSPECTIVAS E CENÁRIOS

A economia brasileira consome-se, há bastante tempo, em um estado de diátese, originário do fato de serem nossas instituições, desde nossos primórdios como nação, fortemente voltadas para uma economia destinada a ser objeto de permanentes interferências estatais sobre as escolhas dos agentes econômicos. Foram – e são ainda! – anos e mais anos em que o Estado gastou desnecessariamente onde não era necessário que o fizesse, deixando de gastar nos setores em que se fazia necessário; foram também muitos anos de uma inflação alta e com forte variância. As conseqüências são conhecidas por todos: dívida interna elevadíssima, dívida externa idem, taxas de juros absolutamente incompatíveis com qualquer sonho de crescimento sustentado e um sistema tributário que mais parece um manicômio, com setenta (!) tributos, taxas e contribuições e com uma carga tributária simplesmente inaceitável, que beira os 40% do PIB, mas que chega perto dos 70% do PIB se a ela acrescentarmos os gastos com auto-proteção e os custos decorrentes da burocracia, da corrupção e da inadimplência.

Isto significa o absurdo de trabalharmos de graça, para o Estado, aproximadamente, até meados do mês de setembro! Enquanto essa concepção estatista e essa mania intervencionista geradora de déficits, de dívidas, de juros proibitivos e da derrama não for estruturalmente alterada, falar-se em crescimento sustentado é, na melhor das hipóteses, sonhar acordado e, na mais realista delas, perder tempo. Todos, no Brasil de hoje – ou quase todos – estão mais preocupados em sobreviver do que em crescer!

A economia americana deverá passar por um processo de ajuste ao longo dos próximos meses, o que representará o preço a ser pago por uma política monetária excessivamente frouxa, que vem mantendo há muitos meses a taxa básica de juros em 1% ao ano, combinada com uma situação fiscal em que o déficit público tem crescido para sustentar a guerra ao terrorismo e em que a carga tributária vem sendo reduzida, algo muito bom, do ponto de vista do longo prazo, porém mais um fator a contribuir para o desequilíbrio fiscal, em uma perspectiva de curto prazo.

Em resumo, o que esperamos é o desaquecimento da economia americana e a manutenção do estado letárgico que vem há bastante tempo caracterizando a economia brasileira, não se justificando qualquer previsão de crescimento sustentado – que é um fenômeno de oferta, de expansão de capacidade produtiva – enquanto nossas instituições políticas não permitirem que sejam efetuadas as reformas do Estado que possam fazer a economia deslanchar.

Acrescentemos que as fortes pressões políticas, robustecidas neste momento pela proximidade das eleições municipais, para que o governo do PT altere a sua política monetária, caso sejam bem sucedidas e levem às mudanças heterodoxas sugeridas, poderão precipitar o caos, caracterizando uma situação de inflação bem maior do que a atual, desencadeando um brevíssimo espasmo de crescimento, logo abortado por uma crise cambial, sem qualquer recuperação no nível de emprego de mão-de-obra. Será a esperança, portanto, transformada em decepção, o que caracterizará uma situação ainda pior do que a atual, que é a de frustração diante das mirabolantes promessas – todas não cumpridas – que o Presidente fez durante a campanha.

Adicione-se, ainda, ventos externos desfavoráveis que começam a anuviar o "céu de brigadeiro" até aqui encontrado pelo governo petista neste seu primeiro vôo pelos céus do poder: além do provável desaquecimento da economia norte-americana, temos que mencionar a forte alta do preço internacional do petróleo e o desaquecimento da economia da China.

No que se refere à política externa, o atual governo brasileiro parece guiar-se por um falso teorema, cujo enunciado é que o somatório das pobrezas seria igual à riqueza... Defender os interesses dos brasileiros não significa adotar atitudes como algumas das que vêem sendo tomadas, contra os Estados Unidos, seu governo e seus cidadãos e muito menos buscar aliados em países como Cuba, Venezuela, Argentina, Líbia, Síria ou, mesmo, confiar em uma sólida relação de longo prazo com o regime ditatorial da China. Melhor seria tentar fortalecer as relações comerciais com nossos mercados tradicionais, como Europa e Estados Unidos, buscando aperfeiçoar os acordos com a União Européia e com o governo americano e abrir nossa economia para todo o mundo, e não apenas para países cujos governos seguem a opção coletivista. Enquanto continuarmos representando menos de 2% do fluxo de comércio internacional, continuaremos sendo uma economia fechada. Das mais fechadas do mundo.

Em suma, estamos descrentes com relação ao que todos almejamos, que é a possibilidade de alcançarmos o crescimento sustentado de nossa economia. Se a ética nos ensina que não devemos ser pessimistas, devemos lembrarmo-nos que ela também nos impõe que sejamos realistas. Nosso desafio é, fundamentalmente, o de melhorar as nossas instituições políticas e jurídicas – o que pressupõe que os valores éticos tradicionais progressivamente abandonados sejam recolocados em seu devido e insubstituível lugar -, para que possamos proporcionar aos nossos agentes econômicos o ambiente necessário para que consigam trabalhar, produzir, poupar e crescer com dignidade.

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